“Educar os Jovens para a Justiça e a Paz”
Para ser construtores de Justiça e de Paz, é condição essencial conhecer e valorizar a condição humana em todas as suas dimensões. Cada Pessoa, pelo que é, pelo que é chamada a ser, como ser que só se define em relação com o outro, descobrindo a fraternidade. Até que ponto é que a nossa sociedade tem sido espaço de abertura para esta descoberta? Que processos e modelos de desenvolvimento têm sido implementados? Que estilos de vida têm vindo a ser promovidos? A grande frustração que parte da Humanidade atravessa actualmente, clama por hábitos de consumo que não são agora possíveis, por qualidade de vida que se anseia poder voltar a ter… ter menos e descobrir com criatividade o valor do ser e do estar é um desafio para as novas gerações, que vivendo bem esta experiência, poderão ser motores de sociedades mais justas e pacíficas, onde todos têm um lugar ajustado, digno. A descoberta de novos modelos de sociedade será um processo educativo para todos, onde sem dúvida os jovens serão um motor. “Educar a sociedade para a Justiça e Paz através dos Jovens” poderia ser o título da Mensagem de Bento XVI.
Para a descoberta do seu papel na construção da “cidade dos homens”, são tão importantes experiências fortes de abertura ao outro, diferente de mim. Experiências em que cada um se confronta consigo próprio e com a sua realidade, com a realidade humana e da Humanidade. Experiências de esvaziamento, em que se ganha a chave da Liberdade, sublinhada por Bento XVI. Liberdade de nos percebermos não como seres absolutos, cheios de respostas eficientes para o mundo, mas sim como seres em construção, limitados, muitas vezes sem soluções, mas com capacidade de ver para além das dificuldades e tribulações.
A FEC (Fundação Fé e Cooperação, ONGD da Conferência Episcopal Portuguesa) revê-se no apelo de Bento XVI para o novo ano. Através da Rede de Voluntariado Missionário, a FEC tem há mais de 10 anos o privilégio de acompanhar experiências de voluntariado internacional que envolvem todos os anos centenas de jovens. O voluntariado revela-se como espaço privilegiado para esta abertura, pela integração em projectos que promovem a justiça junto de comunidades mais vulneráveis, mas que sobretudo promovem a reflexão e a procura dessa justiça na vida de cada um dos voluntários. Tem vindo também a ser cada vez mais preocupação da FEC, através da Rede Fé e Desenvolvimento, a promoção de espaços de reflexão e formação que contribuam para uma participação mais informada e activa dos cristãos na sociedade, com especial atenção aos movimentos de jovens.
Num tempo de dura realidade em Portugal, é importante não nos fecharmos em nós próprios, é urgente perceber que a crise que atravessamos está intimamente relacionada com relações desajustadas, connosco próprios, com os outros, com a natureza, com o Mundo. Conhecer outras realidades, outros pontos de partida para a vida, outras formas de estar, outras necessidades, fazem-nos sair de nós e acordar para o significado transcendente da justiça, de que Bento XVI fala. Justiça que é muito mais que a convenção contratualista, de relações humanas de direitos e deveres, mas antes e sobretudo relações de gratuidade, misericórdia e comunhão, inscritas na identidade profunda do ser humano. Eis a Marca que somos desafiados a deixar neste Tempo!
Margarida Alvim, Rede Fé e Desenvolvimento
in Ecclesia, 20 de Dezembro de 2011
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