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Fé e Desenvolvimento

Em Setembro de 2000, 189 líderes de quase todos os países do Mundo reuniram-se em Nova Iorque para a Cimeira do Milénio das Nações Unidas. Desta Cimeira resultou a Declaração do Milénio, na qual 147 chefes de Estado e de Governo declararam a sua “responsabilidade colectiva na defesa dos princípios da dignidade humana, igualdade e equidade ao nível global”, e o “seu dever para com todas as pessoas do mundo, especialmente os mais vulneráveis e em particular as crianças, às quais pertence o futuro.” Estão contidos nesta Declaração histórica oito Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.

Passados 10 anos da Cimeira do Milénio e a 5 anos do prazo para o cumprimento dos ODM, urge renovar seriamente os compromissos assumidos, olhando com verdade para a realidade. Mais do que renovar compromissos, à luz dessa verdade, urge ter um outro olhar sobre o desenvolvimento, global e de cada indivíduo.

…”a maior força ao serviço do desenvolvimento é um humanismo cristão que reavive a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dom permanente de Deus. (…) Pelo contrário, o fechamento ideológico a Deus e o ateísmo da indiferença, que esquecem o Criador e correm o risco de esquecer também os valores humanos, contam-se hoje entre os maiores obstáculos ao desenvolvimento.”[1]

Tal como Paulo VI nos disse na Populorum progressio, “antes de mais nada, …o progresso é, na sua origem e na sua essência, uma vocação…Dizer que o desenvolvimento é vocação equivale a reconhecer, por um lado, que o mesmo nasce de um apelo transcendente e, por outro, que é incapaz por si mesmo de atribuir-se o próprio significado último.[2]

Todo o ser humano é chamado à vida e como tal, a desenvolver-se, numa vida cada vez mais plena. O desenvolvimento, tal como a vida, é um dom a todos destinado e a que cada homem tem direito. Ao ser um direito é automaticamente uma responsabilidade de todos e de cada um. Usufruímos de um património comum que a todos é destinado e confiado. Os princípios da Doutrina Social da Igreja (bem comum, destino universal dos bens, participação, solidariedade e subsidiaridade, verdade, liberdade e justiça), pela via da Caridade (Amor), mostram o caminho do desenvolvimento integral de cada homem e do homem todo.

Num tempo de tantos recursos, tecnologia, informação, mas simultaneamente de desequilíbrios cada vez maiores no desenvolvimento, é urgente viver com radicalidade o evangelho, exigindo caminhos de mudança, sendo portadores de esperança e sinais vivos de solidariedade e verdade no Amor, verdadeiros motores na transformação social e na luta contra a pobreza.

Somos chamados a “caminhar pela estrada do desenvolvimento com todo o nosso coração e com toda a nossa inteligência, ou seja, com o ardor da caridade e a sapiência da verdade. É a verdade originária do amor de Deus — graça a nós concedida — que abre ao dom a nossa vida e torna possível esperar num « desenvolvimento do homem todo e de todos os homens », numa passagem « de condições menos humanas a condições mais humanas.”[3]


[1] Caritas in Veritate, nº78
[2] Caritas in Veritate, nº16
[3] Caritas in Veritate, nº6