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Para lá dos ODM

Uma leitura à luz da Encíclica “Caridade na Verdade”

O tema do desenvolvimento dos povos está intimamente ligado com o do desenvolvimento de cada indivíduo.

Para lá dos Objectivos de Desenvolvimento assumidos, das parcerias efectuadas, dos esforços realizados, há uma outra lógica a que somos chamados e que intrinsecamente nos acompanha, apesar de muitas vezes sucumbir ao peso das regras que vamos organizando em sociedade. Regras que deveriam ser meios, mas que muitas vezes se transformam em fins.

Somos chamados à lógica do dom, da gratuidade, do Amor, da Comunhão, do Serviço, da Fraternidade. Ir para lá dos ODM, é encontrar essa lógica que cada ser humano traz em si. É um chamamento a encontrar-se consigo próprio, na sua natureza mais profunda, e assim encontrar o outro… Aí, de vizinhos nesta Aldeia Global, passaremos a irmãos.

…por isso, para a prossecução do desenvolvimento, servem «pensadores capazes de reflexão profunda, em busca de um humanismo novo, que permita ao homem moderno o encontro de si mesmo».

Vale a pena reflectir sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio à luz do que nos é proposto na Encíclica “Caridade na Verdade”. Para isso, sugere-se como chave de leitura, alguns binómios que fazem a diferença.

Justiça e Bem Comum

A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é «meu»; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é «dele», o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso «dar» ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça.

Interdependência e interacção

O amor na verdade — caritas in veritate — é um grande desafio para a Igreja num mundo em crescente e incisiva globalização. O risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interacção ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano.

Razão e Fé

Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva o autêntico desenvolvimento, não é assegurada pelo simples progresso técnico e por meras relações de conveniência, mas pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre à reciprocidade das consciências e das liberdades… A razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade.

Pessoas e Instituições / Programas e Projectos

Na realidade, as instituições sozinhas não bastam, porque o desenvolvimento humano integral é primariamente vocação e, por conseguinte, exige uma livre e solidária assunção de responsabilidade por parte de todos. Além disso, tal desenvolvimento requer uma visão transcendente da pessoa, tem necessidade de Deus: sem Ele, o desenvolvimento ou é negado ou acaba confiado unicamente às mãos do homem, que cai na presunção da auto-salvação e acaba por fomentar um desenvolvimento desumanizado.

Proximidade e Comunhão

A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias. A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família… E não é tudo; o subdesenvolvimento tem uma causa ainda mais importante do que a carência de pensamento: é «a falta de fraternidade entre os homens e entre os povos». Esta fraternidade poderá um dia ser obtida pelos homens simplesmente com as suas forças? A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos.

Subdesenvolvimento e Superdesenvolvimento

Enquanto os pobres do mundo batem às portas da opulência, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos à sua porta por causa de uma consciência já incapaz de reconhecer o humano.

Quando se procurarem soluções para a crise económica actual, a ajuda ao desenvolvimento dos países pobres deve ser considerada como verdadeiro instrumento de criação de riqueza para todos.

Direitos e Deveres

Assiste-se hoje a uma grave contradição: enquanto, por um lado, se reivindicam presuntos direitos, de carácter arbitrário e libertino, querendo vê-los reconhecidos e promovidos pelas estruturas públicas, por outro existem direitos elementares e fundamentais violados e negados a boa parte da humanidade. Aparece com frequência assinalada uma relação entre a reivindicação do direito ao supérfluo, senão mesmo à transgressão e ao vício, nas sociedades opulentes e a falta de alimento, água potável, instrução básica, cuidados sanitários elementares em certas regiões do mundo do subdesenvolvimento e também nas periferias de grandes metrópoles. A relação está no facto de que os direitos individuais, desvinculados de um quadro de deveres que lhes confira um sentido completo, enlouquecem e alimentam uma espiral de exigências praticamente ilimitada e sem critérios.